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Congresso mais à direita pode favorecer Flávio, mas nenhum presidente governará sem negociação
A nova composição do Legislativo dá vantagem inicial ao candidato do PL. Ainda assim, o tamanho das bancadas não garante apoio automático: o centro e as lideranças das duas Casas terão papel decisivo.
Por Ferreira Filho
Publicado em 10/10/2026 19:19
COLUNA

A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro não será decidida apenas nas urnas presidenciais. Quem vencer encontrará um Congresso Nacional com maior presença da direita e do PL, partido de Flávio. Esse desenho oferece ao senador uma vantagem institucional inicial, mas não significa que ele terá uma base pronta e disciplinada para aprovar qualquer proposta.

Na Câmara, o PL elegeu 121 deputados, a maior bancada da próxima legislatura. A federação formada por PT, PCdoB e PV ficou em segundo lugar, com 88 cadeiras. A distância mostra a força eleitoral dos dois polos, mas também deixa claro que nenhum deles, sozinho, tem maioria na Casa. 

No Senado, o PL chegará a 2027 com 28 representantes, também a maior bancada. O PT terá nove. Como apenas 54 das 81 cadeiras foram disputadas neste ano, a composição futura inclui ainda os senadores eleitos em 2022 que seguem no mandato. 

Flávio parte com vantagem de articulação

O resultado favorece Flávio porque seu partido cresceu nas duas Casas e porque União Brasil, PP e Republicanos declararam apoio à sua candidatura no segundo turno. Uma projeção desses partidos — junto com PL e Novo — reúne 259 deputados e 48 senadores. É um bloco potencialmente forte para votações ordinárias, mas não uma aliança automaticamente fechada em torno de todas as propostas do Planalto. 

A diferença aparece sobretudo nas votações de maior exigência. Para aprovar uma emenda à Constituição, são necessários 308 votos na Câmara e 49 no Senado. Mesmo a soma projetada dos partidos mais próximos de Flávio ficaria aquém desses números. Reformas constitucionais e pautas controversas dependeriam de acordos adicionais com partidos de centro e de adesões dentro das próprias bancadas. 

Também seria precipitado tratar os parlamentares como um bloco uniforme. Deputados e senadores respondem a interesses regionais, eleitorais e temáticos. O centro pode apoiar um governo em determinadas votações e se afastar em outras, negociando espaço, prioridades e compromissos. A própria análise da Câmara sobre o resultado eleitoral destaca que essas legendas continuam decisivas na construção de maiorias. 

Lula teria mais obstáculos, mas não estaria isolado

Para Lula, a tarefa tende a ser mais difícil. A federação de seu partido é a segunda maior da Câmara, mas menor que a bancada do PL, e o PT terá uma representação reduzida no Senado diante da força da direita. Uma eventual vitória petista, portanto, não viria acompanhada de maioria legislativa própria.

Isso não significaria um governo sem condições de negociar. Lula já demonstrou capacidade de construir acordos com partidos de centro e de aprovar medidas por meio de coalizões. Mas, com o Congresso eleito mais à direita, essa articulação poderia custar mais em cargos, concessões e ajustes na agenda. E as negociações não seriam apenas com as bancadas: as eleições para as presidências da Câmara e do Senado, previstas para o início da nova legislatura, também influenciarão o espaço de cada governo.

A vantagem é de Flávio; o Congresso continua sendo decisivo

Pela correlação de forças, Flávio Bolsonaro teria a situação inicial mais confortável na relação com o Congresso. Seu partido lidera as bancadas das duas Casas, e legendas que anunciaram apoio à sua candidatura podem formar um núcleo parlamentar relevante. Lula, se reeleito, provavelmente precisaria ampliar a coalizão desde o começo.

Mas “mais confortável” não significa governabilidade garantida. O centro conserva poder de negociação, as presidências das Casas não estão definidas e os votos podem variar conforme o tema. O próximo presidente terá de transformar apoio eleitoral e alinhamentos partidários em acordos legislativos concretos.

A conclusão política, portanto, é clara: Flávio parte com vantagem no tabuleiro do Congresso, enquanto Lula enfrentaria uma relação mais exigente. Para ambos, porém, governar dependerá menos da contagem nominal de aliados e mais da capacidade de negociar com um Legislativo fortalecido e plural.

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