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Março se despede — e com ele não deveria ir embora a consciência
Por Ferreira Filho
Publicado em 29/03/2026 06:45
COLUNA
Imagem gerada por IA

Os últimos dias de março carregam sempre um simbolismo especial. É o mês dedicado às mulheres, um período de reconhecimento, de lutas históricas, de conquistas e, sobretudo, de reflexão. Mas, quando esse calendário se aproxima do fim, fica também uma pergunta incômoda: o que realmente mudou além das homenagens?

Em Sergipe, essa reflexão ganha contornos ainda mais dolorosos. O estado, que já vinha apresentando queda nos índices de feminicídio ao longo dos últimos anos, viu esse cenário ser interrompido recentemente. Em 2025, foram registrados cerca de 15 casos — um aumento significativo após a redução observada até 2024. Mais alarmante ainda foi a concentração de ocorrências em curtos intervalos de tempo, revelando não apenas números, mas urgência.

 

Porque o feminicídio não é um evento isolado. Ele é o último capítulo de uma sequência de violências silenciosas, muitas vezes ignoradas. Dados mostram que a maioria das vítimas sequer havia registrado boletim de ocorrência ou solicitado medidas protetivas antes do crime. Isso revela um problema mais profundo: o medo, a dependência, a descrença no sistema ou até a naturalização da violência.

 

Março, então, deixa de ser apenas um mês de flores e discursos. Ele se transforma em um espelho. Um espelho que reflete uma sociedade que ainda falha em proteger suas mulheres. E talvez o mais duro seja perceber que, enquanto campanhas são feitas e operações são lançadas — como a mobilização das forças de segurança em 2026 para combater a violência de gênero —, vidas continuam sendo interrompidas em silêncio, dentro de casas, longe dos holofotes.

 

O fim de março deveria ser apenas a continuidade de um compromisso, não o encerramento dele. Valorizar a mulher não pode ser sazonal. Não pode caber em 31 dias. Não pode depender de datas comemorativas. Precisa estar nas políticas públicas, na educação dos filhos, nas atitudes diárias, na coragem de denunciar, no apoio às vítimas e, principalmente, na transformação cultural. Cada feminicídio é mais que uma estatística — é uma história interrompida, uma família destruída, um futuro apagado.

 

Que esses últimos dias de março não sejam um ponto final, mas um ponto de virada.

Porque o respeito não pode ser lembrado apenas em março. Ele precisa ser praticado todos os dias.

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